Com mais de 85% da sua área coberta de "floresta", Mortágua é dos concelhos da Europa com maior percentagem de "área florestal" e está muito acima da média nacional que ronda os 35%.
Mas será que é mesmo o floresta? Deixando os parâmetros capitalistas de lado o que deve ser na sua essência uma floresta, uma plantação alinhada de árvores da mesma espécie ou um amontoado aleatório de árvores, arbustos e plantas de variadas espécies que entre si compõem um complexo ecossistema onde subsistem seres de todos os outros níveis tróficos? Não é estranho num concelho com 85% de "floresta" não tenha os seus lagos e riachos com inúmeras aves ribeirinhas e os seus bosques cheios de pequenos mamíferos e répteis? Para além da flora os efeitos nocivos desta floresta começam a sentir-se não só na qualidade como na quantidade do nossos recursos hídricos, algo normal quando se plantam árvores de metabolismo elevado. Vivemos cada vez mais no meio de um "deserto verde".
O que será de Mortágua e das suas terras quando o atual modelo de floresta já não for economicamente rentável? É mais fácil destabilizar um ecossistema que voltar a estabilizá-lo.
São escassas e vagas as propostas na área da floresta dos candidatos à governação da autarquia nos próximos 4 anos, é um tema sensível e que a ser tocado pode ter repercussões negativas no número de votos final que cada um destes almeja conseguir. Mas e passadas as eleições, o que será feito? O ambiente deve ser uma preocupação central de qualquer que seja o projeto eleito, e esta questão deve ser um dos principais focos dos próximos mandatos.
Urge pensar a floresta, será de certo o maior desafio dos anos vindouros. Não penso em mudanças radicais, seria irreal da minha parte as a diferença tem de começar a ser feita. Mas é certo que é impossível vender percursos a quedas de água se estas não tiverem água, como verificado este ano.
O que pode ser feito para mudar esta situação?
Tenho 3 sugestões em mente que seguem abaixo:
Primeira: Proibir a plantação de espécies não nativas a menos de 12 metros das linhas de água sejam elas perenes ou intermitentes; Terá não só a função de preservar as zonas ripícolas como também a criação de corredores ecológicos com o concelhos vizinhos, permitindo assim uma forma de mobilidade à flora que nos rodeia.
Segunda: Zona tampão de floresta nativa em torno de todos os aldeamentos; Permitirá a proteção contra incêndios (a grande maioria das espécies autóctones tem níveis de combustibilidade reduzidos) destes aldeamentos como oferecerá produtos para a subsistência dos mesmos, como lenha, cogumelos, frutos silvestres, bolotas, zonas de apicultura etc.
Terceira: A obrigação de compensação ecológica por parte dos produtores de monocultura através da obrigatoriedade de deter e gerir uma área de floresta autóctone equivalente a 15% da área que detém de espécies alóctones; permitindo com isto compensar, por pouco que seja os efeitos menos positivos da monocultura de que é proprietário.
Foto: Ambiente Magazine